Uma das pratas mais badaladas do Brasil completa 25 anos nesta terça-feira. A derrota da seleção brasileira masculina de vôlei na final dos Jogos Olímpicos de Los Angeles-1984 ganhou status de conquista e rende reconhecimento até hoje. Supervalorizados, os atletas da geração de prata ainda convivem com o assédio do público e veem portas abertas para seguir carreira no esporte.
Dos 12 jogadores que estiveram em Los Angeles, apenas Antonio Carlos Gueiros (Badá) mudou radicalmente o ramo de atuação. O ex-jogador é dono de uma pousada em Visconde de Mauá (RJ). Os demais integrantes da geração de prata trabalham direta ou indiretamente com o esporte.
"Profissionalmente, o voleibol me deu tudo. Fazer parte daquela geração conta muito até hoje. E eu cheguei a parar de jogar para fazer faculdade de engenharia para ter um futuro. Mas logo em seguida começou a entrar patrocínio nos clubes. Este processo de profissionalização permitiu que eu continuasse nas quadras", afirmou José Montanaro Júnior ao UOL Esporte. Atualmente o ex-atacante é diretor de vôlei do Santander/São Bernardo.
Montanaro esteve em quadra no dia 11 de agosto de 1984, data em que a seleção brasileira perdeu a final olímpica para os Estados Unidos por 3 sets a 0, com parciais de 15-6, 15-6 e 15-7 (na época, a regra determinava o ponto somente quando a equipe tinha a vantagem). Mas ao contrário do que ocorre com frequência, o segundo lugar não foi considerado um fracasso e acabou enaltecido no país.
"Com certeza esta é a prata mais valorizada. Dificilmente você reconhece tanto uma prata como a que o voleibol conseguiu. Aquele grupo foi um marco para esporte amador. Não se desenvolvia trabalho tão bem feito com planejamento e estrutura física. Mostramos que o Brasil podia produzir equipes vencedoras. Foi um modelo na década de 80 e hoje o vôlei está à frente de outras modalidades", disse o ex-levantador William, técnico do Vôlei Futuro.
"Nós não fomos rotulados como geração de prata no sentido pejorativo, muito pelo contrário. Existe uma coisa muito bacana. Já a prata de 2008 as pessoas enxergam como uma frustração. Mas a história fará justiça a isso tudo e colocará de forma correta esta geração", falou o reserva Bernardinho, que atualmente dirige a seleção brasileira e viu seus comandados caírem também diante dos norte-americanos na decisão do ouro olímpico nos Jogos de Pequim.
"Para dimensionar a nossa conquista, faço uma comparação com o futebol. Na chegada da seleção de futebol, os jogadores quase foram agredidos, enquanto a gente deitou nos louros da vitória", relembrou Marcus Vinícius Freire, atleta mais jovem da geração de prata e atualmente superintendente executivo de esporte do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).
Amauri, Badá, Bernard, Bernardinho, Fernandão, Maracanã, Montanaro, Marcus Vinícius, Renan, Rui Campos, William e Xandó ainda colhem os frutos da prata conquistada sob o comando do técnico Bebeto de Freitas. Mesmo após 25 anos, os ex-atletas ainda são reconhecidos nas ruas para distribuição de autógrafos e fotos.
"O nosso nome caracteriza a medalha de prata, mas a maior conquista daquela geração foi ter conseguido popularizar o voleibol. Mais do que isso, a gente mostrou que tinha capacidade de ser bom em algo além do futebol. As pessoas me reconhecem na rua, parabenizam e agradecem, mesmo sem cabelos e bem diferente", brinca Montanaro.
"O pessoal que lembra é mais velho, tem mais de 40 anos, mas reconhece em qualquer lugar", contou Amauri, que além de fazer parte da geração de prata esteve na campanha do ouro olímpico de Barcelona-1992.
Embora atualmente as definições mais associadas à geração de prata sejam precursora e pioneira, alguns jogadores revelam que na época ouviram colocações consideradas absurdas. "Teve gente que me perguntou se vendemos a final para os Estados Unidos. Mas não existe um valor para isso, que é o fruto de um trabalho que você se dedica e luta demais. Mas isso é resultado da repercussão que teve aqui", disse Domingos Lampariello Netto, o Maracanã.
O valor histórico da prata olímpica, considerada um marco entre o amadorismo e o profissionalismo do vôlei no Brasil, é incontestável. Mas há quem destaque o peso da derrota na final os Estados Unidos, em Olimpíada marcada pela ausência da União Soviética, Cuba, Bulgária e Polônia. Os soviéticos revidaram o boicote norte-americano em Moscou-1980 e não mandaram delegação a Los Angeles.
"Não considero esta [a prata olímpica] a nossa maior conquista. Os melhores do mundo não estavam lá. Perdemos uma grande oportunidade de ganhar o ouro e o que fica na história é a medalha. Poderíamos ter antecipado 92. Eu não gosto de ficar exaltando porque foi uma derrota e feia, por 3 a 0. Não fiquei nada contente e nenhum companheiro meu ficou. Claro que a gente fez história por ter conquistado muito coisa junto, mas perdemos o ouro por bobeira", explicou Badá.
Decepcionado com o revés para os Estados Unidos, o ex-jogador atirou a medalha logo após recebê-la e permaneceu no pódio sem o prêmio - devolvido a Badá por um membro da delegação brasileira. "Fiquei com raiva, tínhamos feito vários jogos e ganhado dos norte-americanos, fomos perder justo aquele", lamentou.
Logo após a partida, a sensação foi mesmo de derrota, segundo Renan Dal Zotto, que atuou em apenas alguns jogos porque machucou o tornozelo pouco antes da Olimpíada. "Demora um pouco até entender que é uma conquista. Mas teve uma atitude do Bernard muito legal. Ele começou a sacudir a bandeira do Brasil quando estávamos no pódio. Quem diz que a prata representa o ouro perdido é porque nunca ganhou uma medalha."
"A prata é um metal muito nobre. E foi por causa dessa medalha que ficamos conhecidos assim e entramos no coração do público brasileiro. Tem muita gente que acompanhava a gente que ainda prefere aquela seleção", disse Rui Campos. |